Um Vasco em transição permanente desde 2024
A SAF do Vasco da Gama atravessa, no início da temporada de 2026, um dos períodos mais sensíveis de sua curta história. Desde que o clube associativo retomou o controle do futebol, em maio de 2024, após o rompimento com a 777 Partners, o Vasco segue operando sem um investidor definitivo, convivendo com limitações financeiras, disputas judiciais e a necessidade constante de equilíbrio entre responsabilidade econômica e competitividade esportiva.
Mesmo com a recuperação judicial homologada, a realidade é dura: o clube precisa manter o futebol funcionando, honrar compromissos do passado e, ao mesmo tempo, avançar nas negociações para a venda da SAF — tudo isso sem cometer novos erros estruturais.
A temporada de 2026 começa, portanto, com o Vasco caminhando sobre uma linha fina entre sobrevivência e reconstrução.
Quem negocia hoje para comprar a SAF do Vasco?
O nome mais avançado nas tratativas atuais é o do empresário Marcos Faria Lamacchia, de 47 anos, filho de José Lamacchia, fundador da Crefisa. A negociação ocorre diretamente com a diretoria liderada por Pedrinho, que hoje detém o controle da SAF por decisão judicial.
Segundo informações inicialmente divulgadas pelo jornalista Lucas Pedrosa, Marcos Lamacchia conta com forte entusiasmo familiar para avançar no negócio e mantém relação positiva com a atual gestão vascaína.
Apesar da ligação indireta com Leila Pereira, presidente do Palmeiras, por laços familiares, Marcos construiu trajetória própria no mercado financeiro e não atua na gestão esportiva da dirigente alviverde.
Perfil do empresário e histórico no mercado financeiro
Marcos Lamacchia tem perfil discreto e raramente aparece publicamente. Ele é fundador da Blue Star, gestora financeira criada em 2011, e já atuou como diretor da Crefisa, além de ter passado pelo Banco Alfa, instituição tradicional ligada à família.
O empresário acompanha o processo do Vasco desde a ação judicial que retirou o controle da 777 Partners até a homologação da recuperação judicial, o que indica conhecimento profundo da situação financeira e jurídica do clube.
Até o momento, não houve qualquer confirmação oficial por parte do Vasco ou da família Lamacchia. Marcos, inclusive, encontra-se fora do Brasil.
Caixa apertado e risco de novo empréstimo DIP
Mesmo com a recuperação judicial aprovada, o Vasco segue enfrentando restrições severas de fluxo de caixa. O empréstimo DIP anterior, no valor aproximado de R$ 80 milhões, tende a se esgotar justamente neste início de 2026.
Diante disso, a diretoria avalia internamente a necessidade de um novo empréstimo DIP, modalidade comum para empresas em recuperação judicial. Mais uma vez, a Crefisa aparece como possível fonte do recurso.
Esse cenário aumenta a urgência por um investidor definitivo, já que novos empréstimos aliviam o presente, mas prolongam a dependência financeira.
Como está dividida hoje a SAF do Vasco?
Atualmente, a estrutura acionária da SAF vascaína está fragmentada:
30% pertencem ao clube associativo
31% pertencem à 777 Partners (hoje sob controle da A-CAP)
39% seguem em disputa arbitral
Para que a SAF seja vendida integralmente, o Vasco precisa vencer a disputa jurídica ou costurar um acordo que destrave essa parcela em litígio — fator que torna qualquer negociação mais complexa e demorada.
O legado financeiro da 777: um passivo pesado
A passagem da 777 Partners pelo Vasco deixou marcas profundas. Entre agosto de 2022 e maio de 2024, a empresa realizou 35 contratações, mas deixou uma herança financeira problemática.
Relatórios internos indicam que apenas 18% das obrigações financeiras até maio de 2024 haviam sido quitadas.
Entre as principais pendências herdadas estão:
R$ 51,2 milhões em dívidas com outros clubes
R$ 5,4 milhões em luvas e bônus a jogadores
R$ 3,5 milhões pagos ao Nacional para evitar transferban (caso Puma Rodríguez)
Pendências com atletas fora dos planos, como Serginho
Regularização de luvas atrasadas, como no caso de Payet
Desde então, a atual gestão trabalha com renegociações, parcelamentos e acordos para evitar sanções esportivas.
Recuperação judicial: remédio amargo, mas necessário
A recuperação judicial do Vasco foi homologada em dezembro, com aprovação de 97,7% dos credores. A partir de 2026, o clube passará a desembolsar entre R$ 25 e R$ 30 milhões por ano para quitar dívidas do passado.
Esses valores não foram gerados pela atual gestão, mas impactam diretamente o orçamento operacional e limitam investimentos no futebol.
Pedrinho tem sido firme no discurso: não haverá irresponsabilidade financeira, mesmo sob pressão por grandes contratações.
Há, de fato, um novo investidor?
Sim, ao menos em estágio avançado de conversa. O presidente confirmou que há NDAs assinados e que um dos investidores está muito mais avançado do que os demais.
Apesar disso, a diretoria só pretende anunciar qualquer acordo após:
aprovação dos conselhos do clube
total transparência contratual
garantias de governança e solidez financeira
A experiência com a 777 transformou o critério de escolha do novo parceiro em algo extremamente rigoroso.
Opinião do torcedor: cautela hoje para não pagar o dobro amanhã
Ver rivais investindo pesado enquanto o Vasco pisa no freio dói. Mas a verdade é que o clube já pagou caro demais por decisões apressadas e promessas vazias.
A gestão atual pode errar em campo, pode sofrer pressão da arquibancada, mas acerta ao colocar a sobrevivência institucional acima do imediatismo. A escolha do próximo investidor não pode ser emocional, nem baseada em nomes ou aparências. Precisa ser técnica, jurídica e financeiramente sólida.
O Vasco não precisa apenas de dinheiro. Precisa de governança, compromisso e responsabilidade. Se o processo for mais lento, mas seguro, vale a espera. Porque outro erro desse tamanho pode não ter volta.

