Um dado que preocupa logo no início da temporada
O início de 2026 já impõe ao Vasco da Gama um desafio enorme — e que vai muito além de contratações pontuais ou ajustes táticos. Os números da temporada passada escancaram um problema: o clube perdeu exatamente metade de seus gols com as saídas de Pablo Vegetti e Rayan.
Somados, os dois atacantes marcaram 47 gols em 2025, num universo de 94 gols feitos pelo Vasco ao longo de toda a temporada. Vegetti, artilheiro e referência ofensiva, contribuiu com 27 gols. Rayan, jovem revelação e principal válvula de velocidade do time, anotou 20 gols.
Os dois já não vestem mais a camisa cruzmaltina. O argentino acertou sua saída para o Cerro Porteño, enquanto Rayan foi negociado com o Bournemouth, da Inglaterra. O impacto esportivo dessas baixas é direto, mensurável e extremamente relevante.
Vegetti: o centro do ataque e da confiança do time
Pablo Vegetti não foi apenas o principal artilheiro do Vasco em 2025. Ele foi, durante praticamente toda a temporada, o eixo em torno do qual o ataque funcionava.
Além dos 27 gols, o camisa 99 cumpria funções que os números não captam completamente:
Prendia zagueiros
Facilitava a chegada de meias e pontas
Oferecia segurança emocional ao time em momentos de pressão
Convertia chances em jogos travados, especialmente em São Januário
Sua saída representa mais do que a perda de um finalizador: significa a ausência de uma referência clara de jogo, algo que raramente se substitui apenas com um nome.
Rayan: juventude, velocidade e profundidade
Já Rayan simbolizava outro tipo de ameaça ao adversário. O atacante de lado combinava velocidade, potência física e chegada constante à área, algo que fez dele um dos jogadores mais decisivos do elenco em 2025.
Seus 20 gols chamam atenção especialmente pelo contexto:
Não era centroavante
Dividia responsabilidades ofensivas
Muitas vezes começava aberto pelo lado
Rayan foi o escape em jogos truncados, o jogador que quebrava linhas e obrigava defesas a se reorganizarem. Sua venda era esperada, pelo potencial e idade, mas a perda esportiva é imediata.
Metade dos gols foi embora — e isso é raro na Série A
O dado mais alarmante é que Vegetti e Rayan formaram a dupla com maior influência direta no total de gols entre os clubes da Série A em 2025, considerando apenas bolas na rede, sem contar assistências.
Pouquíssimos times concentraram tanto poder de fogo em apenas dois jogadores. Isso explica por que o Vasco, mesmo com oscilações coletivas, conseguiu se manter competitivo ofensivamente ao longo do ano.
Agora, o cenário muda completamente.
Quem sobra do ataque que funcionou em 2025?
Depois da dupla, os artilheiros do Vasco na temporada passada foram:
Philippe Coutinho – 11 gols
Nuno Moreira – 11 gols
São números respeitáveis, mas que exigem cautela na análise.
Coutinho, embora tecnicamente diferenciado, não é um jogador de constância física ao longo de uma temporada inteira. Já Nuno Moreira viveu momentos de brilho, mas ainda não se firmou como protagonista absoluto.
Ou seja: o Vasco não apenas perdeu seus principais goleadores, como não possui no elenco atual ninguém que, sozinho, chegue perto dessa produção.
As contratações ofensivas até agora
A diretoria agiu no mercado, ainda que dentro de severas limitações financeiras. Para o setor ofensivo, chegaram:
Brenner, centroavante, contratado para disputar a função de camisa 9
Marino Hinestroza, atacante de lado, com perfil de velocidade e agressividade
Ambos são apostas interessantes, mas carregam pontos de interrogação naturais.
Brenner chega com a missão mais ingrata: substituir Vegetti em impacto, presença de área e gols. Já Hinestroza precisará adaptar seu jogo ao futebol brasileiro e assumir responsabilidades que, até então, não estavam sobre seus ombros.
Ainda falta peça-chave no ataque
Internamente, o Vasco reconhece que o ataque ainda não está fechado. A busca por mais um atacante de velocidade, capaz de atuar pelos lados e atacar o espaço, segue como prioridade.
Esse movimento ganha ainda mais peso justamente pelo contexto das saídas de Vegetti e Rayan. Sem reforçar esse setor, o risco é claro: um time que cria, mas não converte.
O dilema financeiro por trás das decisões
É impossível analisar o cenário ofensivo do Vasco sem considerar o momento institucional. O clube vive:
recuperação judicial
restrição de fluxo de caixa
dependência de negociações e oportunidades de mercado
Isso limita escolhas. O Vasco não pode simplesmente repor “à altura” com jogadores consolidados do mesmo nível. O caminho passa por:
apostas
reestruturação coletiva
distribuição mais equilibrada dos gols
O problema é que isso leva tempo — e o futebol cobra resultados imediatos.
A responsabilidade agora é coletiva
Sem Vegetti e Rayan, o Vasco precisará mudar sua lógica ofensiva. Não haverá mais dois jogadores concentrando metade dos gols. A saída passa por:
maior participação dos meias
pontas chegando mais à área
laterais sendo mais agressivos
bolas paradas melhor aproveitadas
É uma transformação estrutural, não apenas de nomes.
Opinião do torcedor: o alerta está dado, mas não há espaço para desespero
Perder metade dos gols de um ano para o outro não é algo trivial — é quase um recomeço ofensivo.
Mas também é preciso ser honesto: o Vasco não podia depender eternamente de dois jogadores. Isso, por si só, já era um risco estrutural. O desafio agora é transformar essa perda em uma mudança de mentalidade.
Se o time conseguir distribuir melhor a responsabilidade ofensiva, ganhar alternativas e reduzir a previsibilidade, pode até sofrer menos do que os números sugerem. Mas, se a bola parar de entrar, não haverá discurso que segure a pressão.
O alerta foi dado pelos números. Cabe ao Vasco responder em campo.

